O discurso a seguir foi escrito para o primeiro Centenário de fundação da ST mundial, e também publicado na mesma revista, O Teosofista, edição especial de 1975, que estamos citando. O
Primórdios do movimento Teosófico no Brasil
O discurso a seguir foi escrito para o primeiro Centenário de fundação da ST mundial, e também publicado na mesma revista, O Teosofista, edição especial de 1975, que estamos citando.
O autor é o professor Rosala Garzuze (1906-2009), segundo presidente do Instituto Neopitagórico em Curitiba, sucedendo o fundador Dario Velloso (1867-1937).
Não será através destas linhas […] que iremos apresentar a família teosófica brasileira, no momento em que ela vibra com intensa alegria pelo feliz acontecimento, personalidade por demais conhecida do Professor Dario Velloso. Mas alguns dados essenciais sobre a ação missionária desse pioneiro na difusão da Teosofia e dos ensinamentos teosóficos no Brasil, e a relevância de seu apostolado universalista no continente tornam-se necessários, nesta oportunidade, para gáudio de todos os discípulos da grande Mestra que foi Helena Petrovna Blavatsky.
Nascido em 26 de novembro de 1869, no Retiro Saudoso, bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, antiga capital do Império, Dario trasladou-se ainda adolescente, em companhia do progenitor e do irmão mais moço – a progenitora já havia falecido – para Curitiba, onde passou o resto de sua existência terrena, até sua partida para as Crotonas do Céu, em 28 de setembro de 1937.
Carioca pelo nascimento e paranaense pelo coração, Dario Velloso amou o Paraná e o Brasil como o mais dileto de seus filhos, e a humanidade como cidadão do mundo.
De tipógrafo, na oficina do jornal Dezenove de Dezembro, de Curitiba, à cátedra de História Universal e do Brasil, no Ginásio Paranaense (depois Colégio Estadual do Paraná) e na Escola Normal (depois Instituto de Educação), desenvolveu uma trajetória caracterizada pelo ininterrupto amor ao trabalho e ao estudo e uma irreprimível predestinação à defesa das grandes causas e dos supremos ideais humanos.
Na Maçonaria, no magistério, nas sociedades literárias, nas lojas teosóficas, nos comícios e nas tribunas populares, nos congressos científicos ou nas comemorações cívicas, bem como no jornalismo, era a palavra que esclarece e anima, verbo que açoita a injustiça e o erro, a razão que acalenta a verdade e a justiça – evocando aquele cavaleiro antigo que a lenda imortalizou com sans peur et sans reproche (sem medo e sem mácula).
A formação espiritual de Dario Velloso fez-se ao contato das Escolas Iniciáticas dos fins do século passado, ao tempo em que na França e em outros países da Europa, mas principalmente naquela, crepitava o fogo da nascença espiritualista no Ocidente, e uma plêiade de sábios procurava sistematizar e revitalizar os ensinamentos da Sabedoria Arcaica.
Foi ao calor desse fogo inextinguível que Dario Velloso conheceu, em 1896, através de publicações que chegavam do Velho Continente, a Teosofia e a Sociedade Teosófica.
Na revista Club Curitibano, ano VII, nº 9, de 15 de setembro de 1896, Dario Velloso iniciava a publicação de um artigo sob o título “Teosofia – Ocultismo”, e, abaixo do título, entre parênteses, a observação: “Traduzido especialmente para esta revista”.
Os números 9, 10 e 12 daquela revista trouxeram a tradução do artigo acima referido, publicado inicialmente no nº 30 da Revue Encyclopédique Larousse como “Teosofia e a Sociedade Teosófica”. No exemplar da citada revista Club Curitibano, pertencente ao INP (Instituto Neopitagórico), pode-se ler, ao final do artigo, com letra do próprio punho de Dario: “Tradução de Dario Velloso.”
(Erasmo Pilotto, “Dario Velloso – Cronologia”, Curitiba, 1969, pág. 50)
Foi esse o primeiro trabalho sobre Teosofia publicado no Brasil. Não temos conhecimento de outro mais antigo.
A título de curiosidade, transcrevemos abaixo o preâmbulo dessa notável bibliografia:
Em fins de 1875, o acaso reuniu, em Nova Iorque, o coronel americano Henry Steel Olcott, uma russa de espírito aventureiro, H. P. Blavatsky, e outras pessoas que se davam também ao estudo das questões filosófico-religiosas. Nesse modesto cenário, deliberaram que havia antagonismo entre a Religião e a Ciência, buscando, então, o meio de as conciliar. Madame Blavatsky, que tinha estado na Índia e penetrado, dizia, no Tibete, afirmou que tal conciliação existia nas antigas Teosofias que, surgidas na Índia, tinham servido de guia para a humanidade durante numerosos séculos. Conforme o costume americano, a ideia, uma vez concebida, foi logo posta em prática. Criaram uma Sociedade Teosófica, sob a presidência do Coronel Olcott.
(Club Curitibano, Ano VII, nº 9, 15 de setembro de 1896, pág. 2)
Escreve Dario Velloso em seu livro, Horto de Lísis, 1922, pág. 173: “Os estudos de Teosofia e Ocultismo, encetei-os em maio de 1896 com a leitura do Tratado Metódico de Ciência Oculta, de Papus.”
Na revista maçônica Ramo de Acácia, nº 28, 1911, págs. 311/313, Dario Velloso escrevia, em seu artigo “À Margem do Cristianismo Esotérico”:
“Há onze anos estudo Teosofia; há quinze, Ocultismo; em ambos tenho encontrado base idêntica à dos Antigos Mistérios, à doutrina dos Colégios Iniciáticos — sintetizada na Escola de Crotona, fundada por Pitágoras e continuada até a época atual.”
Seus contatos com as fontes diretas datam do último ano do século XIX: “Em 1900, conheci Blavatsky e Annie Besant.”
De sua correspondência com o então coronel Raymundo Pinto Seidl, mantida através de longos anos, surgiu a ideia da formação, em Curitiba, de um Grupo de Estudos Teosóficos. Foi assim que, fundou-se em 12 de outubro de 1919 a Loja Teosófica Nova Krotona, iniciativa e direção de Dario Velloso, e composta, de início, por onze pitagóricos.
(Erasmo Pilotto, op. cit., págs. 92 e outras.)
Em 17 de novembro de 1919, fundava-se no Rio de Janeiro, sob a presidência do coronel Raymundo Pinto Seidl, a SOCIEDADE TEOSÓFICA NO BRASIL, com a colaboração, entre outras, da Loja Teosófica Nova Krotona, de Curitiba.
Em janeiro de 1920, editava-se a revista Pitágoras, órgão oficial da Loja Nova Krotona.
Em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, a referida Loja publicou um opúsculo de 116 páginas — “A Teosofia e a Fraternidade” — em louvor do evento, com a seguinte dedicatória:
Ao Cel. R. P. Seidl,
Secretário da ST no Brasil,
Pelo seu nobre esforço,
Pelo seu amor aos ideais teosóficos,
Pelo seu espírito de fraternidade,
Consagra
A Loja Teosófica Nova Krotona.
Até seu falecimento, Dario Velloso conservou sua fidelidade a Blavatsky, alertando sempre os teosofistas quanto ao perigo dos sectarismos e das infiltrações estranhas ao espírito da teosofia no seio da Sociedade Teosófica.
No Templo das Musas, sede do Instituto Neopitagórico, têm sido acolhidos fraternalmente numerosos peregrinos da fraternidade vindos de diversos recantos do mundo, trazendo também para seus irmãos pitagóricos aquela mensagem de amor e de caminho que a Teosofia faz soar na conturbada atmosfera física e astral do planeta.
Possam os teosofistas do mundo inteiro, irmanados nas comemorações do centenário da fundação da Sociedade Teosófica, reafirmar sua fé no Caminho apontado pela grande Mestra Helena Petrovna Blavatsky, são os votos do Instituto Neopitagórico e dos pitagóricos do Brasil.
Que os Santos Seres iluminem os que velam o Lótus Sagrado, para que a Paz reine entre os homens!
“Blavatsky irradiou, na hora precursora da hecatombe ocidental, Lúcifer, jorrando nas almas a Luz do Oriente, luz do novo ciclo, anunciadora e guiadora.”
(Dario Velloso)