Do Caderno de Notas de um Impopular Filósofo

H.P. Blavatsky

[Lúcifer, Vol. I, no 1, setembro, 1887, pp. 80]

O VALOR ESOTÉRICO DE CERTAS PALAVRAS E AÇÕES NA VIDA SOCIAL

Uma definição de Opinião Pública. Reunião de algumas pessoas antiquadas positivamente eletrificadas pelo fanatismo e pela força do hábito, que influenciam os muitos tolos negativamente eletrificados pela indiferença. A aceitação de pontos de vista pouco caridosos sob "sugestão" por "impacto telepático" (o que quer que isto possa significar). O trabalho da psicologia inconsciente. 

Pesar solidário — A expressão disso na Sociedade, para nossa tristeza, é como uma procissão funeral solene, em que a fileira de carruagens enlutadas é longa, de fato, mas os carros estão todos vazios. 

Troca mútua de cumprimentos — As expressões de deleite, e outras, na sociedade culta, são como as folhas de figo dos civilizados Adões e Evas. Estes "anteparos" para esconder a verdade são fabricados incessantemente nos Édens sociais e seu nome é polidez


Guardar o sábado
— Afrontar publicamente e ostentar superioridade sobre Cristo, "que é maior que o templo", e o sábado, que defendeu o direito de seus discípulos "quebrarem" o sábado, pois o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado ("Digo-vos, porém: Aqui está o que é maior que o templo" [Mateus, 12, 6] e "O sábado foi feito por causa do homem, e  não o homem  por causa do sábado" [Marcos, 2, 27] etc.). 


Assistir aos Cultos Divinos
— Infringir o mandamento expresso de Jesus. Tornar-se "como são os hipócritas", que adoram rezar na Sinagoga e nos Templos "para serem vistos dos homens". [Mateus, 6, 5]). 


Jurar sobre a Bíblia
— Uma lei cristã, arquitetada e adotada para perpetuar e cumprir o inequívoco mandamento do Fundador do Cristianismo "absolutamente não jureis nem pelo céu... nem pela terra..." (Mateus, 5, 34-35). Como se considera terem sido o céu e a terra criados apenas por Deus, um livro escrito por homens recebeu assim a prerrogativa sobre o primeiro. 


Impopularidade
— Odiamos apenas aqueles que invejamos ou tememos. O ódio é uma homenagem oculta e forçada prestada à pessoa odiada; uma tácita admissão da superioridade do impopular personagem. 


O verdadeiro valor da difamação e do falar mal pelas costas. Uma prova do rápido triunfo futuro da vítima escolhida. A picada da mosca quando a criatura sente seu fim próximo. 
 
 

ALGUMAS ILUSTRAÇÕES SOBRE O ASSUNTO TIRADAS DE SHOPENHAUER

Sócrates era repetidamente caluniado e atacado verbalmente pelos oponentes de sua filosofia, e com a mesma freqüência era instado por seus amigos a vingar sua honra nos tribunais de Atenas. Tendo recebido um pontapé de um cidadão rude, na presença de seus seguidores, um destes expressou surpresa por ele não ter-se ressentido do insulto, ao que o Sábio replicou: 

"Deveria então sentir-me ofendido e pedir ao magistrado para vingar-me se fosse chutado também por um asno?" 


Quanto à outra observação, se havia se sentido insultado por um homem que lhe disse nomes, ele tranqüilamente respondeu: 


"Não, pois nenhum dos epítetos por ele usados aplica-se a mim". (De Platão, Geórgias). 


O famoso cínico, Crato, tendo recebido do músico Nicodromus um soco que fez seu rosto inchar, friamente afixou uma placa em sua testa com os dizeres "Nicodromus facit". O tocador de flauta mal escapou com vida das mãos do populacho, que via Crato como um deus dos lares. 

Sêneca, em sua obra De Constanta Sapientis, trata de forma muito elaborada os insultos por palavras e ações, ou contumélia, e a seguir declara que nenhum Sábio dá a menor importância a tais coisas. 


"Bem, sim!" exclamará o leitor, "mas estes eram homens Sábios!" 


"E vocês, são por acaso apenas tolos? De acordo!". 

Tradução: Marly Winckler