O fim de um bom lama

H.P. Blavatsky

[Lúcifer, Vol. I, no 1, setembro, 1887, p. 51] 

O que quer que possa ser dito contra o budismo sem deidades, sua influência, onde quer que ele seja praticado, é muito benéfica. Encontramos o Espírito do "Senhor Buda... pleno de compaixão, o Instrutor do Nirvana e da Lei" enobrecendo até mesmo a menos filosófica de suas seitas dissidentes: o lamaísmo dos nômades calmucos. As estepes do Cáspio testemunharam, há poucos meses, a solene cremação e enterro de um santo mongol, cujas cinzas receberam tanto lágrimas cristãs quanto lamaicas. O alto sacerdote dos calmucos russos do Volga faleceu no dia 26 de dezembro de 1886, próximo a Vetlyanka, palco, no passado, das mais terríveis epidemias.1 Os gelungs escolheram o dia da cerimônia de acordo com seus livros sagrados; a hora foi fixada astrologicamente, e ao meio-dia do dia 4 de janeiro de 1887, teve lugar a imponente cerimônia. Mais de 80.000 pessoas reunidas, de todos os stanitzas (distritos) cossacos e ooloosses (campos) calmucos da região, formaram uma procissão em torno da pira de cremação. O corpo, preso a uma cadeira de ferro com braços, usada para tais cerimônias, foi introduzido na pira sagrada e as chamas, alimentadas com manteiga fresca. Durante toda a queima a multidão não cessou de chorar e lamentar, os russos demonstrando intensamente o seu pesar, e com razão. 


Por longos anos o defunto lama fora uma espécie de pai dos pobres do país, cristãos ou lamaístas. Vilarejos inteiros de proletários eram alimentados, vestidos e tinham seus impostos pagos com a renda pessoal dele. Suas propriedades em pastagens, gado e dízimo eram imensas, mas o lama estava sempre sem dinheiro. Com sua morte, os pobres miseráveis, que mal podiam manter a alma no corpo, não têm outra perspectiva que não morrer de fome. Assim as lágrimas dos cristãos eram tão abundantes, mas talvez não tão altruístas, quanto as dos pobres pagãos. 

Só no ano anterior, o bom lama recebera 4.000 rublos de um ooloos (campo) calmuco e os dera integralmente para reconstruir uma aldeia russa que havia sido queimada, salvando, assim, centenas da morte pela fome. Ele nunca foi visto durante sua longa vida recusando-se a ajudar qualquer homem, mulher ou criança em necessidade, pagãos ou cristãos, privando-se de todo o conforto para auxiliar seus semelhantes mais pobres. 

Assim morreu o último lama da hierarquia sacerdotal enviado ao Astracã de além da "Cordilheira Nevada",  cerca de sessenta anos atrás. Uma história vergonhosa é contada sobre um peregrino cristão que abusou do bom lama. Este confiara-lhe 30.000 rublos para serem entregues à cidade vizinha: mas o peregrino cristão sumiu, e o dinheiro com ele. 

 

________
Notas:

1 [Também conhecido como Vetlyaninskaya Stanitza, no Enotayevsky uezd da Província de Astracã, na margem direita do Volga. Situava-se no território dos cossacos do Astracã e foi estabelecido em 1764-1765. — Compilador]. 
volta ao texto 

Tradução: Marly Winckler